Os últimos dias têm sido bem difíceis. Passar pela dor de um amor morrido, pela decepção de amar alguém que não existe, dar-se conta de que para continuar vivendo é preciso deixar a carcaça fétida dos arremedos de esperança, de desejos e de sonhos. Sonhar junto, querer junto, pedir a presença de quem está bem ao seu lado, encostadinho, porém, que não se deixa tocar, não se deixa sentir sem pressa, sem a presença de computadores ou de preocupações que foram sempre tão bem guardadas para não azedar a nossa vidinha. De tanto não compartilhar, de tanto se alienar de si mesmo, dos próprios sentimentos, de tanto guardar a sete chaves tudo o que dói, o que não é compreendido, o que machuca, você foi se tornando esse alguém que não existe. É difícil querer estar com quem não existe. Com quem boicota um abraço, com quem boicota beijos, com quem boicota compartilhar um simples "como foi seu dia?".
Por tudo isso os últimos dias têm sido tão difíceis. Olhar de frente o vazio da casa e sentir a solidão plena, rasgada, sem artifícios, aquela solidão que eu já carrregava, mas que me confundia com a sua presença tão ausente. Agora sou só eu. Eu pensando e repensando. Eu sentindo e me invandindo de sentimentos. Eu dormindo cansada, acordando cansada. Eu chorando por não entender como tudo foi tão longe e como você é tão pequeno ao dizer que eu não tenho que chorar. Se eu choro, se eu sinto, se eu me sinto perdida, por vezes vazia, é porque eu realmente me permito sentir o momento, no caso, esse momento tão doloroso de uma separação. É. Eu vou chorar. Ainda vou chorar mais e mais. E esse choro não carrega a sua leitura egocêntrica da situação. Esse choro é um choro por mim. Um choro por uma pessoa que conheci há tanto tempo e que depois se guardou tanto até ficar tão pequena de tanto que se dobrou. É um choro por um quinhão de palavras não ditas, de silêncios instituídos por sua lei marcial em face aos meus protestos por intimidade. É um choro por quem nunca soube me olhar e me apreciar, apreciar minhas letras, minhas cores, minhas percepções, minha sede de vida. É por isso que choro, viu? Choro porque dói. Choro pelos abraços rejeitados, pelos carinhos distribuídos aleatoreamente em talvez o quê, cinco segundos? Era esse o tempo do seu carinho comigo. Segundos. Era assim o tempo que gastava diariamente comigo, uns cinco minutos onde cabiam meia dúzia de palavras e pequenos toques.
E mesmo assim, lá eu fiquei. Amarrada numa esperança de mudança e numa memória de alguém que se mostrou diferente, disponível para um outro tipo de carinho, para estar inteiro. Talvez, esse daí também nunca existiu. Talvez esse também seja o eco do meu desejo mais humano de ser gente, de cheirar gente, de tocar gente, de beijar gente, de viver sendo gente. E eu me pergunto tanto porque fiquei. Porque acreditei, porque abracei esse amor pequeno, torto, pobre.
Já disse: os últimos dias têm sido difíceis. Especialmente na hora de dormir. Especialmente quando eu sonho. Naqueles momentos em que o coração parece rasgar de tanto querer respostas, de tanto receber a sua poupança de vazio que você depositou dia a dia para mim. E o melhor é que encontro no meio de tanto vazio, tanto carinho de quem realmente tem tempo e desejo de mim; que eu encontro certezas que me preenchem e belezas e forças que me fazem ser uma pessoa em pé.
Os próximos dias continuarão difíceis, eu sei. Eu não gosto de sentir pela metade ou de socar sentimentos e metê-los em algum lugar escuro da alma. Eu já fiz isso antes e não funcionou, aprendi. Por isso, hoje, o meu compromisso é comigo. Ouvir meus sentimentos, me deixar levar por eles e depois juntar tudo o que esparramou para modelar algo novo. É verdade que eu mudei muito desde que nos conhecemos. Mudei para muito melhor. Mudei para colocar os primeiros tijolos de quem sou hoje. Mudei para continuar me investigando e me construindo. Fatalmente, o tempo de sua construção é diferente. Talvez ainda esteja no manejo da casinha de papel, esforçando-se para construir suas mansões cheias de fibras que de dissolvem quando chove mais forte.
Taí: um de nossos problemas foram as metáforas. Eu gosto de metáfora.
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