A raiva vai passando, vai ficando um sentimento de cansaço, de estar perdida, de não entender porque tudo tem que acontecer assim e, ao mesmo tempo, querer respostas, querer entendimento, como se isso pudesse arrancar a tristeza de dentro de mim e eu ganhasse tempo para seguir em frente mais leve.
Você tem falado que precisa desse tempo, que não sabe mais quem você é, que não está feliz consigo mesmo. E eu fico pensando se todos os relacionamentos precisam passar por isso ou terminar dessa forma. Quando a vida toma o caminho errado e em algum momento chega a conta, inevitavelmente cara demais para alguém. Nosso relacionamento estava um lixo. Lixo por sua postura infame, pelas desatenções constantes, pelos abraços confiscados. Mas ultimamente tenho me perguntado por que eu também errei, por que poderia ter feito diferente e não o fiz, por que, por que, por que...????...???
Estou aqui, sozinha, na casa. Você virá buscar suas coisas na sexta feira. Você não vai mudar de ideia. Você precisa desse tempo. Quem sabe esse tempo vai te fazer ser uma pessoa melhor, mais consciente. Quem sabe nesse seu tempo você sinta minha falta, você olhe para a situação com outra reação que não a fuga. Pode ser também que nada disso aconteça e simplesmente você siga adiante sem o "peso" que se tornou a nossa relação. Só quero não ficar presa a você, presa a lembranças que um dia foram tão boas, apaixonadas e intensas. E que parecem que foram há uma eternidade. A pessoa dos últimos anos não era essa. Eu não era essa. Nós mudamos, você tem razão. E, para minha tristeza, parece que eu sou a parte da relação que ainda queria lutar por algo, mesmo parecendo que não tem conserto.
Meu desejo hoje é que você voltasse. Que a gente pudesse ter uma conversa de verdade, que pudéssemos nos abraçar e olhar nos olhos. Meu desejo era cuidar de você e que você cuidasse de mim. Meu desejo continua sendo por alguém que não existe, que está preso num tempo onde eu não caibo mais. Minha irmã falou para eu ter fé, para eu acreditar que isso que está acontecendo é algo bom, mesmo que agora eu julgue que não seja. Devo acreditar nisso, que a vida será melhor, que eu serei melhor. Preciso fazer algo para que essas palavras se realizem, preciso que o meu tempo seja de mais tranquilidade e amorosidade comigo mesma. É difícil administrar a tristeza, a ausência, as memórias. É difícil não ter você aqui perto, mesmo que já estivesse longe há tanto tempo.
Alguém que Não Existe
terça-feira, 4 de março de 2014
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
O dia de merda
Hoje foi um dia de merda. Na verdade desde ontem à noite já sabia que o dia seria uma merda. Sabe quando a gente pressente algo que não vai bem? Então, foi isso. Exatamente assim. Ainda bem que ontem de noitinha ganhei um presente, uma música de alguém que lembrou de mim, me trouxe palavras cantadas lindas e um gosto de passado láááá de longe. Depois, dormi com essa lembrança me abraçando. E, inevitavelmente acordei. Pra variar, antes do despertador tocar. Tomei banho, vesti uma calça que já ficou larga, preferi colocar uma saia e fui pro dia de merda. Não gosto de ver gente quando estou tomada de sentimentos como esse. Mas hoje não tinha jeito. E olha que era gente pra caramba... Vinte pessoas? E desde manhã recebi os seus telefonemas. Depois de todo o silêncio, eis que você apareceu. Acho que foi exatamente aí que o dia ficou merda mesmo. Não sou muito boa nas máscaras, reunião de merda, agenda de merda, socorro, estou sufocando de tanta coisa caindo em cima de mim. E na hora do almoço retornei as ligações e tivemos a nossa conversa definitiva. Nem vou falar dela. Nem sei o que pensar dela. Só sei que fiquei tomada por tantas coisas, tem alguma coisa me habitando, socorro. Tá bem no meu estômago, sobe pra garganta, parece que vai sair pelo meu olho.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
A importância da faxina
Você é o tipo de pessoa que posterga a faxina para terceiros. Nunca gostou da ideia de pegar numa vassoura, tirar pó dos móveis, desinfetar a privada. Essas atividades não são vistas por você como parte de um cuidado com o lugar que vive, eram simplesmente a parte ruim da vida em que é melhor pagar alguém para fazê-lo. Muitas pessoas pensam assim. Neste país, a cultura da empregada doméstica permanece com força. Não estou dizendo que não podemos ter ajuda ou que a limpeza deva ser feita pessoalmente sempre. Estou dizendo que tem uma qualidade no ato e na ideia de limpar que é preciso exercitar. Limpar não é só tirar sujeira, marcas poluídas, jogar coisas fora. Limpar é se conectar com uma energia de renovação. Limpar é olhar para tudo com novos olhos, de organização, de lustro, de apuro. É um ato de amor. Em minhas limpezas, acabei trazendo a importância dos cheiros, de limpar também o que não se vê, de criar um clima de paz. O ato físico de limpar desvela um estado psíquico de conforto, de tranquilidade, de fazer bem feito.
Bom, até aí, tudo bem. Mas o que é bem importante é perceber que a limpeza da casa reflete a limpeza interior. Pode parecer cliché, mas não é. Estar rodeado de bonitezas, de criatividade, de paz, transforma humores. Vamos aprendendo nesse exercício a limpar nós mesmos, a enxergar e a agir, a transformar, a usar o esforço para fazer diferente, fazer melhor. Por isso não acredito que a faxina é algo menor, algo somente a ser pago e nunca vivido. É algo que pode ter o brilho meditativo de se conectar com coisas importantes. Pode-se pagar, pode-se evitar de fazê-la muitas vezes. Mas não se deveria concebê-la como algo desnecessário de ser feito por causa de nossa falta de tempo ou por nossa preguiça e cansaço. Tem um aprendizado aí que pode revelar muito a maneira com que nos colocamos no mundo.
Limpe e limpe-se.
Bom, até aí, tudo bem. Mas o que é bem importante é perceber que a limpeza da casa reflete a limpeza interior. Pode parecer cliché, mas não é. Estar rodeado de bonitezas, de criatividade, de paz, transforma humores. Vamos aprendendo nesse exercício a limpar nós mesmos, a enxergar e a agir, a transformar, a usar o esforço para fazer diferente, fazer melhor. Por isso não acredito que a faxina é algo menor, algo somente a ser pago e nunca vivido. É algo que pode ter o brilho meditativo de se conectar com coisas importantes. Pode-se pagar, pode-se evitar de fazê-la muitas vezes. Mas não se deveria concebê-la como algo desnecessário de ser feito por causa de nossa falta de tempo ou por nossa preguiça e cansaço. Tem um aprendizado aí que pode revelar muito a maneira com que nos colocamos no mundo.
Limpe e limpe-se.
domingo, 16 de fevereiro de 2014
Despedida de alguém que não existe - II
Mais uma carta lançada ao mar, enroladinha dentro de uma garrafa e esperando ser encontrada. Nela, seguem palavras bem desenhadas, uma porção de frases que talvez só façam sentido para mim mesma. Porque no fundo é isso que os náufragos fazem: eles mandam pedidos de ajuda desejando se conectar à uma rota, encontrar um (outro) lugar, uma nova existência. Talvez outros náufragos possam se identificar e talvez nossas garrafas cumpram um brinde no alto mar. Neste mar psíquico, o mar das rotas ilógicas, das grandes tormentas, das noites completamente negras.
Tenho pensado em você e tenho sido convidada a pensar em mim. Porque não sou parte inativa, passiva, de toda essa história. Eu me deixei ficar. Senti medo de perder a bússola mesmo que tão desmagnetizada. Senti ternura muitas vezes. Senti desejo de me fazer ser vista, reconhecida, apreciada, amada. Senti necessidade de ser ouvida, lutava por isso, me entristecia pelos sempre poucos minutos de atenção. Fui sendo teimosa, procurando se existia um mapa para acessar você. E no meio de tudo isso, eu perdi meus remos. Permiti me deixar levar, fui fluindo, às vezes levemente, outras vezes fui arrastada, mas sempre seguindo sem rota, engolindo água, sentindo a pele arder de insolação. O que eu fazia? Colocava um chapéu para não me avermelhar tanto, me nutria dos carinhos quando vinham e não dava bola para aquela voz que falava comigo, a minha voz, que me assobiava nos ouvidos: isso está te matando.
Fui me calando por não ter o que falar com você. Eram línguas diferentes, não só literalmente. Sua terra estrangeira tem algumas plantas ornamentais para atrair a atenção de quem por ali passar, mas tem o chão um tanto seco, com pedregulhos que causam dor quando pisados. Para andar nessa terra é preciso flutuar, manter as raízes aéreas. Essa terra pouco cultivada, arada com pouco amor, com pouca entrega, com pouco muito. Não sabia percorrer essa terra, não sabia ver o árido e não me secar também. A minha terra não é modelo. Ela também tem suas securas, suas pedras, seus buracos escondidos. É que eu venho buscando trazer muita água para ela e sinalizar onde está o perigo. Mas não respeitei a minha natureza e fechei os olhos, como quem parte para um mergulho. Nao respeitei o que desejo, o que quero, minha fome de palavras, de cumplicidade, de atenção, de brilhar de interesse.
Nesta carta, lanço para o mar essas palavras. A minha investigação sobre mim. Mais uma parte de uma despedida de alguém que me faz chorar hoje, mesmo eu sabendo que deveria festejar a descoberta de sua inexistência. Assumir o "você real" me causa confusão: onde foi que eu desisti de te olhar de frente e preferi fechar os olhos nesse mergulho cego?
Despedida de alguém que não existe
Os últimos dias têm sido bem difíceis. Passar pela dor de um amor morrido, pela decepção de amar alguém que não existe, dar-se conta de que para continuar vivendo é preciso deixar a carcaça fétida dos arremedos de esperança, de desejos e de sonhos. Sonhar junto, querer junto, pedir a presença de quem está bem ao seu lado, encostadinho, porém, que não se deixa tocar, não se deixa sentir sem pressa, sem a presença de computadores ou de preocupações que foram sempre tão bem guardadas para não azedar a nossa vidinha. De tanto não compartilhar, de tanto se alienar de si mesmo, dos próprios sentimentos, de tanto guardar a sete chaves tudo o que dói, o que não é compreendido, o que machuca, você foi se tornando esse alguém que não existe. É difícil querer estar com quem não existe. Com quem boicota um abraço, com quem boicota beijos, com quem boicota compartilhar um simples "como foi seu dia?".
Por tudo isso os últimos dias têm sido tão difíceis. Olhar de frente o vazio da casa e sentir a solidão plena, rasgada, sem artifícios, aquela solidão que eu já carrregava, mas que me confundia com a sua presença tão ausente. Agora sou só eu. Eu pensando e repensando. Eu sentindo e me invandindo de sentimentos. Eu dormindo cansada, acordando cansada. Eu chorando por não entender como tudo foi tão longe e como você é tão pequeno ao dizer que eu não tenho que chorar. Se eu choro, se eu sinto, se eu me sinto perdida, por vezes vazia, é porque eu realmente me permito sentir o momento, no caso, esse momento tão doloroso de uma separação. É. Eu vou chorar. Ainda vou chorar mais e mais. E esse choro não carrega a sua leitura egocêntrica da situação. Esse choro é um choro por mim. Um choro por uma pessoa que conheci há tanto tempo e que depois se guardou tanto até ficar tão pequena de tanto que se dobrou. É um choro por um quinhão de palavras não ditas, de silêncios instituídos por sua lei marcial em face aos meus protestos por intimidade. É um choro por quem nunca soube me olhar e me apreciar, apreciar minhas letras, minhas cores, minhas percepções, minha sede de vida. É por isso que choro, viu? Choro porque dói. Choro pelos abraços rejeitados, pelos carinhos distribuídos aleatoreamente em talvez o quê, cinco segundos? Era esse o tempo do seu carinho comigo. Segundos. Era assim o tempo que gastava diariamente comigo, uns cinco minutos onde cabiam meia dúzia de palavras e pequenos toques.
E mesmo assim, lá eu fiquei. Amarrada numa esperança de mudança e numa memória de alguém que se mostrou diferente, disponível para um outro tipo de carinho, para estar inteiro. Talvez, esse daí também nunca existiu. Talvez esse também seja o eco do meu desejo mais humano de ser gente, de cheirar gente, de tocar gente, de beijar gente, de viver sendo gente. E eu me pergunto tanto porque fiquei. Porque acreditei, porque abracei esse amor pequeno, torto, pobre.
Já disse: os últimos dias têm sido difíceis. Especialmente na hora de dormir. Especialmente quando eu sonho. Naqueles momentos em que o coração parece rasgar de tanto querer respostas, de tanto receber a sua poupança de vazio que você depositou dia a dia para mim. E o melhor é que encontro no meio de tanto vazio, tanto carinho de quem realmente tem tempo e desejo de mim; que eu encontro certezas que me preenchem e belezas e forças que me fazem ser uma pessoa em pé.
Os próximos dias continuarão difíceis, eu sei. Eu não gosto de sentir pela metade ou de socar sentimentos e metê-los em algum lugar escuro da alma. Eu já fiz isso antes e não funcionou, aprendi. Por isso, hoje, o meu compromisso é comigo. Ouvir meus sentimentos, me deixar levar por eles e depois juntar tudo o que esparramou para modelar algo novo. É verdade que eu mudei muito desde que nos conhecemos. Mudei para muito melhor. Mudei para colocar os primeiros tijolos de quem sou hoje. Mudei para continuar me investigando e me construindo. Fatalmente, o tempo de sua construção é diferente. Talvez ainda esteja no manejo da casinha de papel, esforçando-se para construir suas mansões cheias de fibras que de dissolvem quando chove mais forte.
Taí: um de nossos problemas foram as metáforas. Eu gosto de metáfora.
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