domingo, 16 de fevereiro de 2014

Despedida de alguém que não existe - II




Mais uma carta lançada ao mar, enroladinha dentro de uma garrafa e esperando ser encontrada. Nela, seguem palavras bem desenhadas, uma porção de frases que talvez só façam sentido para mim mesma. Porque no fundo é isso que os náufragos fazem: eles mandam pedidos de ajuda desejando se conectar à uma rota, encontrar um (outro) lugar, uma nova existência. Talvez outros náufragos possam se identificar e talvez nossas garrafas cumpram um brinde no alto mar. Neste mar psíquico, o mar das rotas ilógicas, das grandes tormentas, das noites completamente negras.

Tenho pensado em você e tenho sido convidada a pensar em mim. Porque não sou parte inativa, passiva, de toda essa história. Eu me deixei ficar. Senti medo de perder a bússola mesmo que tão desmagnetizada. Senti ternura muitas vezes. Senti desejo de me fazer ser vista, reconhecida, apreciada, amada. Senti necessidade de ser ouvida, lutava por isso, me entristecia pelos sempre poucos minutos de atenção. Fui sendo teimosa, procurando se existia um mapa para acessar você. E no meio de tudo isso, eu perdi meus remos. Permiti me deixar levar, fui fluindo, às vezes levemente, outras vezes fui arrastada, mas sempre seguindo sem rota, engolindo água, sentindo a pele arder de insolação. O que eu fazia? Colocava um chapéu para não me avermelhar tanto, me nutria dos carinhos quando vinham e não dava bola para aquela voz que falava comigo, a minha voz, que me assobiava nos ouvidos: isso está te matando.

Fui me calando por não ter o que falar com você. Eram línguas diferentes, não só literalmente. Sua terra estrangeira tem algumas plantas ornamentais para atrair a atenção de quem por ali passar, mas tem o chão um tanto seco, com pedregulhos que causam dor quando pisados. Para andar nessa terra é preciso flutuar, manter as raízes aéreas. Essa terra pouco cultivada, arada com pouco amor, com pouca entrega, com pouco muito. Não sabia percorrer essa terra, não sabia ver o árido e não me secar também. A minha terra não é modelo. Ela também tem suas securas, suas pedras, seus buracos escondidos. É que eu venho buscando trazer muita água para ela e sinalizar onde está o perigo. Mas não respeitei a minha natureza e fechei os olhos, como quem parte para um mergulho. Nao respeitei o que desejo, o que quero, minha fome de palavras, de cumplicidade, de atenção, de brilhar de interesse.

Nesta carta, lanço para o mar essas palavras. A minha investigação sobre mim. Mais uma parte de uma despedida de alguém que me faz chorar hoje, mesmo eu sabendo que deveria festejar a descoberta de sua inexistência. Assumir o "você real" me causa confusão: onde foi que eu desisti de te olhar de frente e preferi fechar os olhos nesse mergulho cego?

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